sexta-feira, 26 de maio de 2017

A suprema lei do bem e da caridade




A tarde se esvaía em meio às últimas claridades do sol enquanto o vendaval marcava o início de uma noite tumultuada, entre relâmpagos e trovoadas. Iansã parecia competir com Xangô no reino de Aruanda; raios e trovões se alternavam enquanto a chuva aumentava vertiginosamente, trazendo preocupações para a comunidade já sofrida, que dependia das bênçãos da natureza para sua sobrevivência. Na cabana de Pai João, os filhos e filhas do devotado pai-velho reuniam-se para ouvir do benfeitor as palavras de sabedoria que lhes definiriam os caminhos da vida espiritual. Estavam numa casa onde se adorava a Deus e se praticava a caridade segundo a orientação dos espíritos do bem.

— Sabem, meus filhos? — principiava o pai-velho, incorporado em seu médium. — O caminho da espiritualidade tem muitas faces interessantes. Nego-velho diria que esse caminho é feito de muitas cores, de muitos aromas, de muitas ervas. Diferentemente das religiões, em que cada uma pretende ser a única forma de agradar a Deus; diferentemente de outros filhos espiritualistas, que também querem acreditar que a sua maneira de buscar o Pai é a mais correta, a espiritualidade em nosso país é feita de diversas culturas, da fusão de muitas raças, crenças e concepções religiosas. Afinal, aqui onde nós trabalhamos respeitam-se as diferenças, porque existem inúmeras nuances e visões acerca da espiritualidade.

— Meu pai — perguntou a Efigênia, trabalhadora da cabana do pai-velho. — Eu não entendo a sua forma de falar a respeito da espiritualidade. Queria entender um pouco da umbanda, já que muita gente fala tanto dessa religião e nós sabemos tão pouco…

— É bom entender, minha filha, que não existe apenas uma maneira de cultuar a umbanda. Também
é preciso compreender que umbanda não é apenas uma denominação religiosa; antes de ser assim usada, a palavra sagrada era, acima de tudo, o nome divino da suprema lei do Pai. Aumbandã é lei de caridade, é lei divina. De modo mais particularizado é que foi empregado o nome sagrado para designar o culto atual; daí a umbanda nasceu, com a finalidade sagrada de congregar, sob a bandeira de Oxalá, o povo de Deus disperso.

— E há outras umbandas diferentes das que vemos por aí, meu pai?

— Pai-velho compreendeu sua pergunta, meu filho — respondeu de boa vontade o pai-velho para José Benedito, um dos médiuns da casa. — Não é que existam “outras umbandas”, como diz meu filho. O que há são diversas formas de praticar os ensinamentos da espiritualidade; nesse caso, também diversas maneiras de cultuar os orixás, de adorar a Deus ou de praticar a umbanda. Acima de tudo, filhos, o que importa mesmo não é a forma externa, mas sim a intenção, o que se faz em nome da lei suprema. Uns cultuam a umbanda misturada a certo conhecimento a respeito dos orixás, com um ritual inusitado, ao menos para vocês. Vestem-se com roupas coloridas, cantam numa língua diferente, familiar a certo número de indivíduos. É também chamada de língua de santo ou do povo do santo. Na verdade, trata-se de um idioma antigo, dos povos da mãe África. Esse é o culto umbandista conhecido como omolocô.

Dando um tempinho para que seus filhos pudessem absorver as coisas que ele explicava, o vovô, incorporado em seu médium, falava mansinho, devagar, com paciência digna de um verdadeiro sábio:

— Existem aqueles filhos que praticam uma umbanda com mais simplicidade, como a que vocês
conhecem… Alguns chamam essa variação de umbanda pés-no-chão, ou pés-descalços. Não importam os nomes dados aos cultos; essencial é que todos trabalhem conforme as regras do coração e de maneira a praticar a suprema lei do bem.

“Outros filhos fazem um culto mais refinado, desprovido dos elementos africanos. Tentam desafricanizar a umbanda, no sentido de afastar aquilo que a aproxima dos métodos do candomblé, tais como matança de animais, toque de atabaques e outras características próprias dos rituais de origem africana. Introduziram o estudo entre os médiuns e desenvolveram uma visão mais detalhada a respeito dos orixás e seu simbolismo, formando uma teologia umbandista bastante interessante.” [...]

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Este texto foi retirado do livro Corpo fechado, de Robson Pinheiro pelo espírito W. Voltz, Página 197.





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