quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Em busca da obra imaculada: uma utopia perversa


Publicar livros é aprender que não existe obra humana isenta de equívocos e imperfeições
por leonardo möller, editor





A luta contra o erro tipográfico tem algo de homérico. Durante a revisão os erros se escondem, fazem-se positivamente invisíveis. Mas, assim que o livro sai, tornam-se visibilíssimos, verdadeiros sacis a nos botar a língua em todas as páginas. Trata-se de um mistério que a ciência ainda não conseguiu decifrar.

— Monteiro Lobato





Atribuído a um dos mais célebres escritores brasileiros, que também foi editor e tradutor, o trecho adotado como epígrafe permanece atual a despeito da imprensa de tipos ter se tornado obsoleta. Ouso ir mais longe: além de a revisão perfeita ser um mito, existe outro, de caráter mais amplo, vigente especialmente no meio espírita, segundo o qual as informações de qualquer livro merecedor de crédito não deveriam estar sujeitas a ser desmentidas em nenhuma hipótese, tampouco corrigidas.

Sou editor de livros espíritas, que são obras humanas, por definição. São humanos o revisor e o editor que os preparam; mais que isso: é humano o escritor ou médium e — ora vejam! — é humano o espírito que os escreve, no caso de textos psicografados.

Explico. Recentemente, recebemos uma mensagem muito atenciosa de um leitor de 18 anos de idade. Questionava determinada passagem que, segundo ele, estudante de Física, não faz sentido. No livro Os nephilins[1] afirma-se que Júpiter fora uma estrela do Sistema Solar. De acordo com o que o leitor informa, as descobertas da astronomia atestam o contrário, isto é, que o gigante solar jamais tivera massa suficiente para ser um sol e que, como os demais planetas do Sistema, resulta do agrupamento de rochas e gases. Submetemos, então, a questão a outro estudioso da área, que gentilmente confirmou os dados do leitor. Compete-nos, então, indagar o espírito autor e, na próxima impressão, apontar a correção ou a divergência e registrar, em nota, o resultado da apuração. A errata também será publicada no blog.

O pesquisador consultado alertou para outra suposta imprecisão que identificou. Afirma o texto: “400 ou 500 mil anos depois”[2] da destruição do que fora o quinto planeta do Sistema Solar, irmãos das estrelas envolvidos naquela catástrofe caminhariam sobre o planeta Tiamat, posteriormente denominado Terra. Conforme o especialista argumenta, seria impossível que tal evento tivesse ocorrido há tão pouco tempo, em termos astronômicos, sem deixar vestígios facilmente detectáveis na atualidade. Note-se: ele presume que o término daquele período coincide com a atualidade, porém tal interpretação é arbitrária. O livro localiza a chegada daqueles imigrantes não há 500 mil anos, mas cerca de 500 mil anos após a destruição do tal planeta, fato precedido pelo colapso de toda a vida ali — trata-se de dois eventos distintos, e o prazo é contado a partir do mais recente deles. Portanto, o marco fixado é o inicial, e não o final. Lê-se que alguns daqueles espíritos teriam se transferido para Tiamat, porém, não é informada a época em que tais espíritos aportaram no planeta “que mais tarde seria conhecido com o nome de Terra”.[3] Não poderia ser quando da diferenciação entre mamíferos e primatas, há cerca de 85 milhões de anos, de acordo com o que se sabe hoje, ou por ocasião do surgimento dos hominídeos, aproximadamente 15 milhões de anos atrás? Como se vê, o problema, neste caso, pode se ater à interpretação, embora caiba investigar.



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contaminação

Seja como for, a tese que causa espécie é a da contaminação. Diante da constatação de um equívoco como aquele a respeito da natureza de Júpiter, houve quem postulasse que o erro depõe contra a credibilidade da obra como um todo, chegando mesmo a contaminá-la. Santo Deus! Levado a cabo tal raciocínio, não se salvaria nem A gênese, os milagres e as predições segundo o espiritismo, último livro lançado por Allan Kardec (1804–1869), pois descobertas científicas acabaram por refutar algumas teorias ali apresentadas, apesar da anuência dos espíritos superiores quanto à publicação da obra, ocorrida em 1868. A credibilidade do codificador também se macularia mesmo no curso dos 14 anos em que se dedicou às pesquisas espíritas, a partir de 1855, uma vez que fez correções ou alterações em edições subsequentes de seus livros.[4] Exemplo ilustrativo diz respeito à classificação dos fenômenos de obsessão. Já em outubro de 1858, Kardec afirma[5] o que reiteraria em 1861, num texto mais conhecido: “A possessão seria, para nós, sinônimo da subjugação”.[6] Todavia, em dezembro de 1863, emenda-se: “Dissemos que não havia possessos no sentido vulgar do termo, mas subjugados. Queremos reconsiderar esta asserção, posta de maneira um tanto absoluta, já que agora nos é demonstrado que pode haver verdadeira possessão”.[7]

No limite, nenhum trabalho científico sobrevive à prova da isenção de erro, pois as teorias científicas estão sob constante revisão. Nem por isso, entretanto, está em xeque a credibilidade da ciência, como método de investigação da realidade. Pelo contrário, é sua capacidade de atualização que lhe confere perenidade. Tampouco os acertos de um gigante como Isaac Newton são desacreditados e sequer perdem brilho porque ele se dedicou com ardor à alquimia ou cometeu enganos ali e acolá em suas conclusões.



perfeição à vista! ou seria delírio?

Em alguma medida, e nem sempre deliberadamente, a expectativa que parece cercar o trabalho mediúnico, mesmo da parte de pessoas esclarecidas em matéria de espiritismo, é a perfeição. Existe tamanho pavor do erro, tal é a relutância em confessá-lo e fazer as correções necessárias… É como se a todo instante pairasse, sobre a mensagem espírita, no todo ou em particular, o medo de que, à menor demonstração de equívoco, todo o edifício das ideias ali expressas fosse ruir. De onde vem isso? É o próprio Kardec quem declara: “Para mim, eles [os espíritos] foram, do menor ao maior, meios de me informar, e não reveladores predestinados[8]. Há determinada passagem citada frequentemente, embora nem sempre de maneira fiel, que assevera: “É melhor repelir dez verdades do que admitir uma única falsidade, uma só teoria errônea”.[9] A recomendação do espírito Erasto prescreve a prudência, exalta o exame criterioso, mas não abona interpretação que condene todo um trabalho porque contém enganos pontuais.

Como supor atingível qualquer grau de perfeição — se é que a perfeição tem gradações, já que é, por definição, um conceito absoluto —, uma vez que o fenômeno espírita tem diversas e severas limitações? De que modo, se todos os agentes nele envolvidos, notadamente espírito e médium, são humanos e falíveis, conforme assinalado na introdução deste artigo?

Kardec chegou a falar em doutrina “isenta dos erros e dos preconceitos”,[10] como faz na edição original de O livro dos espíritos, de 1857, aquela que acabaria por se tornar tão somente o esboço da edição definitiva. Não obstante, já na versão final — publicada três anos mais tarde e, a partir de então, submetida apenas a leves alterações —, o codificador optou por abolir aquela expressão ambiciosa. Que se note: aquele livro não se trata de uma obra psicografada, pura e simplesmente; muito pelo contrário, consiste numa compilação de diversas comunicações recebidas por diferentes médiuns, cotejadas entre si e, às vezes, fundidas por Kardec, com redação aprimorada, sob a coordenação dos espíritos que compunham a falange daquele que assinava Verdade. À parte as comunicações propriamente ditas, obtidas por meio de perguntas formuladas pelo codificador, são de sua autoria comentários, notas, explicações e ensaios teóricos que complementam as mensagens ali reproduzidas. Se acerca de obra de tamanha envergadura, fruto de quatro anos e meio de exaustivas pesquisas e revisões, o próprio coordenador abdicou de declará-la “isenta dos erros e dos preconceitos”,[11] que médium teria a pretensão de cumprir essa máxima?

Se a ciência e os campos do saber humano gozam da prerrogativa de jamais se proclamarem obra acabada, pois se submetem a constantes revisões e aprimoramentos, como imaginar que qualquer livro espírita não esteja sujeito a princípios análogos, que, em última análise, caracterizam a jornada humana em busca do conhecimento? É evidente que não se trata de legitimar textos repletos de erros grosseiros e manifestamente levianos, inverídicos ou pueris. No entanto, daí a exigir que as comunicações sejam incólumes ou, então, a desprezá-las na íntegra porque contêm um ou outro engano — a despeito do esforço editorial por esmiuçar o conteúdo e confrontá-lo com os conhecimentos disponíveis —, a distância é bastante longa.

Em outras palavras: como cobrar dos espíritos — e, em última análise, do médium, como veículo de manifestação ou intérprete do seu pensamento — aquilo que nós outros não estamos aptos a fazer? Como, se todos os espíritos com os quais interagimos, por mais esclarecidos que sejam, são humanos e sabidamente limitados em seu conhecimento da verdade?

Mais: como esperar que os espíritos fundamentem, em conformidade com os postulados da ciência humana da época em que escrevem, toda e qualquer afirmativa de caráter científico? Então vamos restringir a psicografia a cientistas — versados na ciência terrena mais atual — e vedá-la a escritores e romancistas em geral? Porventura não compete aos encarnados a apuração meticulosa das informações trazidas por meio da mediunidade, na medida do possível? Ainda, em virtude da natureza da revelação espírita, é oportuno ressalvar: em muitas circunstâncias, não está ao alcance averiguar a veracidade dos dados, quando muito, sua verossimilhança ou plausibilidade. Isso sem falar na precariedade material da indústria editorial espírita, geralmente premida por orçamentos modestos e sob forte pressão para praticar preços inferiores à média de mercado, contexto que acarreta impacto sobre os recursos humanos dedicados à pesquisa.

Portanto, abaixo a utopia! Se gozar de credibilidade exigisse completa ausência de erros e equívocos, então estaríamos todos em maus lençóis.




Leonardo Möller
Editor da Casa dos Espíritos, professor e coordenador de reuniões mediúnicas na Casa de Everilda Batista e instrutor do Master em Apometria, curso com Robson Pinheiro.
 

[1] pinheiro, Robson. Pelo espírito Ângelo Inácio. Os nephilins. Contagem: Casa dos Espíritos, 2014. p. 48.
[2] Ibidem. p. 118.
[3] Ibidem, p. 118-119.
[4] Amostra eloquente deste fato se pode ler em um apêndice constante apenas da 5ª edição francesa, de 1861, que foi recuperado em tradução recente e lista seis emendas omitidas até então (cf. “Errata”. In: kardec, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. Rio de Janeiro: feb, 2011. p. 645-647).
[5] kardec, Allan. Revista espírita. Rio de Janeiro: feb, 2004. p. 407 (v. 1, 1858).
[6] kardec, Allan. O livro dos médiuns ou guia dos médiuns e dos evocadores. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. Rio de Janeiro: feb, 2011. p. 371, item 241.
[7] kardec. Revista espírita. Op. cit. p. 499 (v. 6, 1863). Grifo nosso.
[8] “A minha iniciação no espiritismo”. In: kardec, Allan. Obras póstumas. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. Rio de Janeiro: feb, 2009. p. 351.
[9] kardec. O livro dos médiuns… Op. cit. p. 340, item 230.
[10] “Prolegômenos”. In: kardec, Allan. O livro dos espíritos: edição histórica bilíngue (1857). Tradução de Evandro Noleto Bezerra. Brasília: feb, 2013. p. 67.
[11] A citação é alvo de alguma controvérsia. Outro tradutor é da opinião de que tais erros e preconceitos — ou “prejuízos”, tradução equivocada de préjugés — não se referem a postulados da doutrina, mas àqueles que foram “espalhados desde o aparecimento dos fenômenos [espíritas] na França (1853)”. A hipótese é plausível, entretanto, tal tradutor se limita a emitir o juízo, sem arrolar seus argumentos (kardec, Allan. O primeiro livro dos espíritos: texto bilíngue. Tradução de Canuto Abreu. São Paulo: Cia. Ismael, 1957. p. 30, nota 1).