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sexta-feira, 5 de julho de 2019

Em viagem a terra estrangeira

por Leonardo Möller, editor da Casa dos Espíritos

    Várias foram as reflexões suscitadas nos bastidores da preparação do novo livro do espírito Ângelo Inácio, Os viajores: agentes dos guardiões. Conheça algumas delas e um pouco do que encontrará na obra inédita do médium Robson Pinheiro.

“Todo mundo quer voar além/ Mas é preciso aprender”
Paulinho Pedra Azul

Durante a preparação do texto de Os viajores, fui questionado por dois voluntários da UniSpiritus — a qual reúne as três instituições beneficentes fundadas por Robson Pinheiro — acerca da formação de coordenadores tanto de reuniões mediúnicas quanto de determinada tarefa de grande responsabilidade. Desempenhar ambas as funções exige não apenas conhecimento técnico, mas também, entre outras aptidões, sintonia afinada com a equipe espiritual e maturidade para tomar decisões graves, que afetam diretamente a qualidade do trabalho prestado. Em momentos distintos do mesmo dia, a dúvida era semelhante: “Por que não preparamos mais pessoas? Afinal, com mais dirigentes, poderíamos ampliar o número de atendimentos, diminuir a espera imposta aos consulentes, acomodar mais médiuns nas atividades e, enfim, aumentar a produtividade”. Nas entrelinhas, uma insinuação ou, talvez, suspeição: seria uma espécie de ciúmes ou “reserva de mercado” da parte dos encarnados à frente das atividades que impedia tal expansão, certamente justificada pela demanda?

Há detalhes da biografia e da atuação voluntária dos autores das perguntas que dão ao contexto ainda mais peculiaridade, porém, deixando de lado os aspectos particulares, ocorreu-me depois que determinada noção perpassava o pensamento de ambos. Possivelmente, trata-se de um conjunto de ideias comum a muitas pessoas engajadas em atividades de natureza espiritual. Foi então que me dei conta: essa é exatamente a motivação do novo livro de Ângelo Inácio, muito embora, seguramente, não seja a única. Pode se desdobrar em diversos pontos a serem examinados essa convicção de fundo que detectei naquele questionamento.


ESPÍRITO E MATÉRIA


Um dos enganos comuns ao se analisar a administração de conhecimentos e faculdades de ordem transcendental é aplicar critérios puramente materiais sem ressalva, isto é, sem fazer certa adaptação ao assunto em pauta. A diferença mais notória é que, no mundo profissional, selecionam-se indivíduos com perfil mais adequado à função a ser ocupada mediante determinada remuneração. No âmbito do trabalho com os espíritos, recrutam-se colaboradores principalmente conforme sua disposição, levando-se em conta as aptidões disponíveis no universo restrito de voluntários que se engajam e se comprometem com a causa. Há uma máxima que resume esse princípio: Jesus capacita aqueles a quem chama. 

Se porventura ocorre a alguém que seria no mínimo mais prático chamar os capacitados, recomendo a leitura da parábola do festim de bodas (Mt 22:1-14). Ali o próprio Galileu enuncia a mecânica que rege a vocação de servir à causa do Cordeiro, pois, ao iniciar a história, explica: “O reino dos céus é como um rei que preparou um banquete de casamento para seu filho” (Mt 22:2). Ou seja, ele afirma que as coisas funcionam na Terra segundo os princípios arrolados na sequência, uma vez que reino dos céus refere-se às questões humanas, diferentemente da expressão reino de Deus, também frequente nos evangelhos.


TREINO OU INICIAÇÃO?


Outro equívoco contido na noção daqueles dois amigos é o de que, para os assuntos do espírito, seria o bastante treinar as pessoas, a ponto de dominarem certos conhecimentos ou ao menos manejá-los com relativa destreza. Novamente, tal perspectiva, corriqueira na vida material, não pode ser adotada em tópicos de âmbito mediúnico ou espiritual sem a devida adaptação. Há muito mais fatores em jogo; por vezes, estes preponderam a ponto de se tolerar até a falta de perícia do candidato, devido à presença de outras virtudes. Aliás, a ciência espírita demonstra que, entre faculdades extraordinárias e qualidades morais, os bons espíritos, na impossibilidade de conjugar ambos os atributos, tendem a preferir o último deles em quem elegem para lhes servir de intermediário.[1] Caso conhecimento técnico fosse o suficiente, os apóstolos não teriam incorrido nos enganos fragorosos que cometeram após três anos de aprendizado com o próprio Mestre; entretanto, se fosse fundamental, Jesus não teria escolhido simples pescadores como Pedro e André para o seguirem.

Quando respondi às indagações dos colegas, apontei dois elementos centrais que lhes passaram despercebidos. Maturidade é o primeiro deles. Está aí uma conquista que só o tempo pode dar — mas nem sempre a concede; não mesmo! — e que não se ensina em aulas. Ela não garante imunidade a erros, até porque é passível de crescer sempre, porém, sem o mínimo de maturidade, é certo que o destino, nas coisas espirituais, não será nada promissor.

Ao lado desse aspecto, é preciso lembrar a profecia: “Hão de surgir falsos cristos e falsos profetas, e farão grandes sinais e prodígios; de modo que, se possível fora, enganariam até os escolhidos” (Mt 24:24). As provas espirituais às quais é submetido quem é chamado a servir com Jesus, a fim de que se faça eleito, são fato conhecido. Em minha trajetória à frente de equipes mediúnicas e na direção de uma casa espírita desde 1998, já testemunhei a derrocada ou a deserção de grandes trabalhadores, nos quais muito investimento dos espíritos havia sido feito, tanto quanto a mera deliberação, da parte de alguns desses encarnados, de que preferiam não assumir tamanhas atribuições naquela altura. Por óbvio, os ataques de agentes das sombras e as provas da vida são diretamente proporcionais às responsabilidades e ao volume de investimento do bem. Os colaboradores de valor que acompanho há anos e décadas foram alvejados por desafios e empecilhos que me fazem admirar sua persistência — e que lhes deram, vez após outra, todos os pretextos para que deixassem tal compromisso, o qual, apesar disso, não abandonaram.


ESCOLHAS


Uma das passagens marcantes do livro Os viajores é a da médium Maíra, convidada pelos guardiões, espíritos ligados às forças da justiça, a atuar em parceria com eles. Após Maíra submeter-se a muitas noites de treinamento sob a supervisão deles, em desdobramento — ou seja, projetada, em espírito, na dimensão extrafísica —, é num diálogo travado com o espírito Pai João de Aruanda que seu destino é selado. A despeito da intervenção do animista Raul, bem mais experiente, ela mantém sua decisão, que os espíritos superiores sempre, sempre sabem respeitar.

Acompanhamos também, ao longo de um número maior de capítulos, a trajetória da personagem Diana. Desde os primeiros episódios de manifestação de sua mediunidade, quando passa certo sufoco no exercício da sua profissão — a fim de que se suscitasse seu despertar para as questões espirituais —, até as provas árduas que enfrenta na vida pessoal — no intuito de provocar seu amadurecimento —, vemos que se tornar agente dos guardiões não é uma escolha a ser feita de forma leviana, tampouco uma decisão trivial, diante da qual se possa hesitar e oscilar entre esta ou aquela posição, num vaivém que se traduz em indefinição. Nesse ínterim, passam-se noites e mais noites, horas e mais horas de experiências que têm por finalidade capacitar a cadete em formação, ao mesmo tempo que lhe esclarecem quanto às características e aos percalços inerentes ao serviço na companhia dos representantes da justiça divina.

Já no capítulo inicial, os personagens principais do livro se encontram numa conferência na cidade de Aruanda, que reúne numerosos espíritos de variada procedência e na qual são debatidas as iniciativas gerais em prol da chamada transição planetária, isto é, o momento de transformação global por que passa a Terra. Allan Kardec, o codificador do espiritismo, explicou esse estágio como sendo os sinais dos tempos.[2] Em tal reunião, as contribuições dos encarnados, as obras de reurbanização extrafísica e outros temas mais são objeto de discussão dos espíritos.

Após se estabelecerem diretrizes segundo as quais novas investidas deveriam ser encampadas, um destacamento composto por aqueles personagens parte rumo a uma importante empreitada. Nesta, descrita em detalhes na obra, dedicam-se com ardor à formação de médiuns e parceiros para atuar em conjunto com os guardiões e os demais espíritos envolvidos nos trabalhos dessa hora de renovação planetária.


PRAZER EM CONHECER


Em meio às histórias e às peripécias envolvendo Maíra, Diana, Rosário, Raul e outros encarnados, grande volume de conhecimento é oferecido por personagens já apresentados aos leitores por Ângelo Inácio, especialmente Pai João de Aruanda — o pai-velho chamado João Cobú —, Caboclo Tupinambá e Maria Escolástica, a antiga ialorixá reverenciada sob o nome de Mãe Menininha do Gantois. Num dos tópicos mais instigantes, esclarecem por que os nomes de falanges ou categorias de pretos-velhos geralmente são assinalados por sobrenomes como de Aruanda, da Guiné, da Cabinda ou de Angola, entre outros.

Um dos elementos principais que perpassa a trama de Os viajores é a necessidade premente de aprender sobre a geografia, as características e as leis que regem os planos inferiores — que constituem, em última análise, o local onde o animista se verá tão logo saia do corpo físico por meio do desdobramento. Qualquer um que deseja ultrapassar com o mínimo de desenvoltura e lucidez os portais da dimensão astral, visando a uma atuação proveitosa com emissários do Alto, deve estar consciente dos elementos da natureza extrafísica e dos habitantes desse mundo cheio de particularidades.

Como pode alguém pretender colaborar com os espíritos de forma eficaz se não for capaz de distinguir formas-pensamento daninhas nem elementais artificiais, seres dotados de vida própria que representam ameaça àquele viajor que penetrar os meandros do submundo? Aprofundando-se as informações já descritas em Legião — obra de Robson Pinheiro que inicia a trilogia O reino das sombras —, conhecem-se mais propriedades de criações mentais nefastas como aquelas com feições de baratas, lacraias, escorpiões e formigas, mas, também, as serpentes e os vampiros, mencionados pela primeira vez pelo autor espiritual. Estes últimos, aliás, provocaram nos bastidores da edição da obra uma discussão sobre terminologia, assunto sempre envolto em dúvidas no tocante aos temas espiritualistas. Afinal, até então, o vocábulo vampiro designava apenas o espírito especialista em drenar energias, porém, agora se revela que esse termo também é usado para indicar um elemental que, possivelmente, poderia ser denominado sanguessuga, não tivesse já se consagrado com aquele nome.

Uma espécie de habitante dos pântanos do plano inferior a que o leitor é apresentado são as chamadas sombras, que, na verdade, consistem em massas vitais que adquirem aspecto de humanos desencarnados, mas não os são. Formam-se a partir de cascões astrais, isto é, resíduos de corpos astrais e etéricos em decomposição, e condensam emoções em dose intensa e de baixíssima vibração. Para os médiuns em desdobramento, representam grande ameaça, pois com eles podem estabelecer conexão e, então, levá-los a mergulhar em universo de pensamentos desconexos, com evidentes prejuízos à sua atuação e até à sua saúde.

Em dado ponto desta descrição sumária dos temas abordados em Os viajores, há quem possa ficar com a impressão equivocada de que tais assuntos interessam prioritariamente — e, talvez, unicamente — àqueles que intentam agir em regime de parceria com os espíritos. Ledo engano. Como descobrimos ao longo do livro, muitos são os encarnados que, ao desdobrarem, acabam sendo atraídos para espaços como os pântanos do submundo por questões de afinidade. Claro: além de exigirem atenção da parte dos agentes em formação, essas pessoas constituem motivo de alerta a todos que se interessam por temas espirituais, uma vez que o conhecimento é capaz de esclarecer sobre os riscos a que determinados comportamentos e atitudes adotados em vigília podem expor o indivíduo. Afinal de contas, todos nos desprendemos do corpo físico durante o sono, em alguma medida. Nesse momento, por sintonia vibratória, buscamos e chegamos, na dimensão do espírito, a ambientes compatíveis com nosso estado, em conformidade com o que cultivamos. De fato, como se vê, é preciso aprender a viajar.



Leonardo Möller

Editor da Casa dos Espíritos, professor e coordenador de reuniões mediúnicas na Casa de Everilda Batista e instrutor do Master em Apometria, curso com Robson Pinheiro.


[1] “Influência moral do médium. Perguntas diversas”. In: KARDEC, Allan. O livro dos médiuns ou guia dos médiuns e dos evocadores. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. Rio de Janeiro: FEB, 2011. p. 362-363, item 226, §8.
[2] “Os tempos são chegados. Sinais dos tempos”. In: KARDEC, Allan. A gênese, os milagres e as predições segundo o espiritismo. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. Rio de Janeiro: FEB, 2011. p. 513-533, cap. 18, itens 1-26.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Água Viva: o poder vital da natureza. Com a força dos espíritos.

A Água Viva é um remédio energético distribuído gratuitamente, cuja produção foi iniciada em 2005. Seu ingrediente principal é a flor que dá nome ao remédio — água-viva —, planta nativa de regiões altas da cordilheira do Himalaia, segundo nos contam os benfeitores espirituais. A utilização de seu princípio ativo é possível graças aos fenômenos de transporte, bem caracterizados por Allan Kardec em "O livro dos médiuns". Outras ervas entram na composição do remédio em gotas, entre flores, folhas, sementes, cascas e raízes. Para o gel, são utilizadas diversas tinturas e essências.

Saiba mais: http://bit.ly/2BO4QKF





ÁGUA VIVA E OS ESPÍRITOS

A equipe responsável pela Água Viva é composta pelos seguintes espíritos: Joseph Gleber, Alex Zarthú, Palminha, José Grosso, Sadhú, Shadú, Inna, João Cobú, João Nunes, Eurípedes, Fernando de Lacerda, Martha Figner, Irtes Therezinha, Everilda Batista, Lua Nova, Tupinambá, Dias da Cruz, Calimério, Sérvulo Túlio, Rá-monh-Tep.





A Água Viva é feita exclusivamente com mão de obra voluntária, embora todos os insumos que a produção requer sejam adquiridos com recurso financeiro arrecadado especialmente para esse fim. Como se sabe, a distribuição do remédio é inteiramente gratuita, obedecendo a determinação espiritual: "Em hipótese alguma deve ser cobrado um centavo sequer da medicação" Robson Pinheiro pelo caboclo Tupinambá, 18/11/2004.



É por isso que convidamos você a se envolver de corpo e alma na campanha para fazer jorrar essa Água, tão preciosa para todos nós. Em 2019 serão produzidas 6.000 unidades deste medicamento, mas para sua produção, são investidos aproximadamente R$50 mil.

Seja você também um parceiro deste trabalho!

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quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Em busca da obra imaculada: uma utopia perversa


Publicar livros é aprender que não existe obra humana isenta de equívocos e imperfeições
por leonardo möller, editor





A luta contra o erro tipográfico tem algo de homérico. Durante a revisão os erros se escondem, fazem-se positivamente invisíveis. Mas, assim que o livro sai, tornam-se visibilíssimos, verdadeiros sacis a nos botar a língua em todas as páginas. Trata-se de um mistério que a ciência ainda não conseguiu decifrar.

— Monteiro Lobato





Atribuído a um dos mais célebres escritores brasileiros, que também foi editor e tradutor, o trecho adotado como epígrafe permanece atual a despeito da imprensa de tipos ter se tornado obsoleta. Ouso ir mais longe: além de a revisão perfeita ser um mito, existe outro, de caráter mais amplo, vigente especialmente no meio espírita, segundo o qual as informações de qualquer livro merecedor de crédito não deveriam estar sujeitas a ser desmentidas em nenhuma hipótese, tampouco corrigidas.

Sou editor de livros espíritas, que são obras humanas, por definição. São humanos o revisor e o editor que os preparam; mais que isso: é humano o escritor ou médium e — ora vejam! — é humano o espírito que os escreve, no caso de textos psicografados.

Explico. Recentemente, recebemos uma mensagem muito atenciosa de um leitor de 18 anos de idade. Questionava determinada passagem que, segundo ele, estudante de Física, não faz sentido. No livro Os nephilins[1] afirma-se que Júpiter fora uma estrela do Sistema Solar. De acordo com o que o leitor informa, as descobertas da astronomia atestam o contrário, isto é, que o gigante solar jamais tivera massa suficiente para ser um sol e que, como os demais planetas do Sistema, resulta do agrupamento de rochas e gases. Submetemos, então, a questão a outro estudioso da área, que gentilmente confirmou os dados do leitor. Compete-nos, então, indagar o espírito autor e, na próxima impressão, apontar a correção ou a divergência e registrar, em nota, o resultado da apuração. A errata também será publicada no blog.

O pesquisador consultado alertou para outra suposta imprecisão que identificou. Afirma o texto: “400 ou 500 mil anos depois”[2] da destruição do que fora o quinto planeta do Sistema Solar, irmãos das estrelas envolvidos naquela catástrofe caminhariam sobre o planeta Tiamat, posteriormente denominado Terra. Conforme o especialista argumenta, seria impossível que tal evento tivesse ocorrido há tão pouco tempo, em termos astronômicos, sem deixar vestígios facilmente detectáveis na atualidade. Note-se: ele presume que o término daquele período coincide com a atualidade, porém tal interpretação é arbitrária. O livro localiza a chegada daqueles imigrantes não há 500 mil anos, mas cerca de 500 mil anos após a destruição do tal planeta, fato precedido pelo colapso de toda a vida ali — trata-se de dois eventos distintos, e o prazo é contado a partir do mais recente deles. Portanto, o marco fixado é o inicial, e não o final. Lê-se que alguns daqueles espíritos teriam se transferido para Tiamat, porém, não é informada a época em que tais espíritos aportaram no planeta “que mais tarde seria conhecido com o nome de Terra”.[3] Não poderia ser quando da diferenciação entre mamíferos e primatas, há cerca de 85 milhões de anos, de acordo com o que se sabe hoje, ou por ocasião do surgimento dos hominídeos, aproximadamente 15 milhões de anos atrás? Como se vê, o problema, neste caso, pode se ater à interpretação, embora caiba investigar.



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contaminação

Seja como for, a tese que causa espécie é a da contaminação. Diante da constatação de um equívoco como aquele a respeito da natureza de Júpiter, houve quem postulasse que o erro depõe contra a credibilidade da obra como um todo, chegando mesmo a contaminá-la. Santo Deus! Levado a cabo tal raciocínio, não se salvaria nem A gênese, os milagres e as predições segundo o espiritismo, último livro lançado por Allan Kardec (1804–1869), pois descobertas científicas acabaram por refutar algumas teorias ali apresentadas, apesar da anuência dos espíritos superiores quanto à publicação da obra, ocorrida em 1868. A credibilidade do codificador também se macularia mesmo no curso dos 14 anos em que se dedicou às pesquisas espíritas, a partir de 1855, uma vez que fez correções ou alterações em edições subsequentes de seus livros.[4] Exemplo ilustrativo diz respeito à classificação dos fenômenos de obsessão. Já em outubro de 1858, Kardec afirma[5] o que reiteraria em 1861, num texto mais conhecido: “A possessão seria, para nós, sinônimo da subjugação”.[6] Todavia, em dezembro de 1863, emenda-se: “Dissemos que não havia possessos no sentido vulgar do termo, mas subjugados. Queremos reconsiderar esta asserção, posta de maneira um tanto absoluta, já que agora nos é demonstrado que pode haver verdadeira possessão”.[7]

No limite, nenhum trabalho científico sobrevive à prova da isenção de erro, pois as teorias científicas estão sob constante revisão. Nem por isso, entretanto, está em xeque a credibilidade da ciência, como método de investigação da realidade. Pelo contrário, é sua capacidade de atualização que lhe confere perenidade. Tampouco os acertos de um gigante como Isaac Newton são desacreditados e sequer perdem brilho porque ele se dedicou com ardor à alquimia ou cometeu enganos ali e acolá em suas conclusões.



perfeição à vista! ou seria delírio?

Em alguma medida, e nem sempre deliberadamente, a expectativa que parece cercar o trabalho mediúnico, mesmo da parte de pessoas esclarecidas em matéria de espiritismo, é a perfeição. Existe tamanho pavor do erro, tal é a relutância em confessá-lo e fazer as correções necessárias… É como se a todo instante pairasse, sobre a mensagem espírita, no todo ou em particular, o medo de que, à menor demonstração de equívoco, todo o edifício das ideias ali expressas fosse ruir. De onde vem isso? É o próprio Kardec quem declara: “Para mim, eles [os espíritos] foram, do menor ao maior, meios de me informar, e não reveladores predestinados[8]. Há determinada passagem citada frequentemente, embora nem sempre de maneira fiel, que assevera: “É melhor repelir dez verdades do que admitir uma única falsidade, uma só teoria errônea”.[9] A recomendação do espírito Erasto prescreve a prudência, exalta o exame criterioso, mas não abona interpretação que condene todo um trabalho porque contém enganos pontuais.

Como supor atingível qualquer grau de perfeição — se é que a perfeição tem gradações, já que é, por definição, um conceito absoluto —, uma vez que o fenômeno espírita tem diversas e severas limitações? De que modo, se todos os agentes nele envolvidos, notadamente espírito e médium, são humanos e falíveis, conforme assinalado na introdução deste artigo?

Kardec chegou a falar em doutrina “isenta dos erros e dos preconceitos”,[10] como faz na edição original de O livro dos espíritos, de 1857, aquela que acabaria por se tornar tão somente o esboço da edição definitiva. Não obstante, já na versão final — publicada três anos mais tarde e, a partir de então, submetida apenas a leves alterações —, o codificador optou por abolir aquela expressão ambiciosa. Que se note: aquele livro não se trata de uma obra psicografada, pura e simplesmente; muito pelo contrário, consiste numa compilação de diversas comunicações recebidas por diferentes médiuns, cotejadas entre si e, às vezes, fundidas por Kardec, com redação aprimorada, sob a coordenação dos espíritos que compunham a falange daquele que assinava Verdade. À parte as comunicações propriamente ditas, obtidas por meio de perguntas formuladas pelo codificador, são de sua autoria comentários, notas, explicações e ensaios teóricos que complementam as mensagens ali reproduzidas. Se acerca de obra de tamanha envergadura, fruto de quatro anos e meio de exaustivas pesquisas e revisões, o próprio coordenador abdicou de declará-la “isenta dos erros e dos preconceitos”,[11] que médium teria a pretensão de cumprir essa máxima?

Se a ciência e os campos do saber humano gozam da prerrogativa de jamais se proclamarem obra acabada, pois se submetem a constantes revisões e aprimoramentos, como imaginar que qualquer livro espírita não esteja sujeito a princípios análogos, que, em última análise, caracterizam a jornada humana em busca do conhecimento? É evidente que não se trata de legitimar textos repletos de erros grosseiros e manifestamente levianos, inverídicos ou pueris. No entanto, daí a exigir que as comunicações sejam incólumes ou, então, a desprezá-las na íntegra porque contêm um ou outro engano — a despeito do esforço editorial por esmiuçar o conteúdo e confrontá-lo com os conhecimentos disponíveis —, a distância é bastante longa.

Em outras palavras: como cobrar dos espíritos — e, em última análise, do médium, como veículo de manifestação ou intérprete do seu pensamento — aquilo que nós outros não estamos aptos a fazer? Como, se todos os espíritos com os quais interagimos, por mais esclarecidos que sejam, são humanos e sabidamente limitados em seu conhecimento da verdade?

Mais: como esperar que os espíritos fundamentem, em conformidade com os postulados da ciência humana da época em que escrevem, toda e qualquer afirmativa de caráter científico? Então vamos restringir a psicografia a cientistas — versados na ciência terrena mais atual — e vedá-la a escritores e romancistas em geral? Porventura não compete aos encarnados a apuração meticulosa das informações trazidas por meio da mediunidade, na medida do possível? Ainda, em virtude da natureza da revelação espírita, é oportuno ressalvar: em muitas circunstâncias, não está ao alcance averiguar a veracidade dos dados, quando muito, sua verossimilhança ou plausibilidade. Isso sem falar na precariedade material da indústria editorial espírita, geralmente premida por orçamentos modestos e sob forte pressão para praticar preços inferiores à média de mercado, contexto que acarreta impacto sobre os recursos humanos dedicados à pesquisa.

Portanto, abaixo a utopia! Se gozar de credibilidade exigisse completa ausência de erros e equívocos, então estaríamos todos em maus lençóis.




Leonardo Möller
Editor da Casa dos Espíritos, professor e coordenador de reuniões mediúnicas na Casa de Everilda Batista e instrutor do Master em Apometria, curso com Robson Pinheiro.
 

[1] pinheiro, Robson. Pelo espírito Ângelo Inácio. Os nephilins. Contagem: Casa dos Espíritos, 2014. p. 48.
[2] Ibidem. p. 118.
[3] Ibidem, p. 118-119.
[4] Amostra eloquente deste fato se pode ler em um apêndice constante apenas da 5ª edição francesa, de 1861, que foi recuperado em tradução recente e lista seis emendas omitidas até então (cf. “Errata”. In: kardec, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. Rio de Janeiro: feb, 2011. p. 645-647).
[5] kardec, Allan. Revista espírita. Rio de Janeiro: feb, 2004. p. 407 (v. 1, 1858).
[6] kardec, Allan. O livro dos médiuns ou guia dos médiuns e dos evocadores. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. Rio de Janeiro: feb, 2011. p. 371, item 241.
[7] kardec. Revista espírita. Op. cit. p. 499 (v. 6, 1863). Grifo nosso.
[8] “A minha iniciação no espiritismo”. In: kardec, Allan. Obras póstumas. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. Rio de Janeiro: feb, 2009. p. 351.
[9] kardec. O livro dos médiuns… Op. cit. p. 340, item 230.
[10] “Prolegômenos”. In: kardec, Allan. O livro dos espíritos: edição histórica bilíngue (1857). Tradução de Evandro Noleto Bezerra. Brasília: feb, 2013. p. 67.
[11] A citação é alvo de alguma controvérsia. Outro tradutor é da opinião de que tais erros e preconceitos — ou “prejuízos”, tradução equivocada de préjugés — não se referem a postulados da doutrina, mas àqueles que foram “espalhados desde o aparecimento dos fenômenos [espíritas] na França (1853)”. A hipótese é plausível, entretanto, tal tradutor se limita a emitir o juízo, sem arrolar seus argumentos (kardec, Allan. O primeiro livro dos espíritos: texto bilíngue. Tradução de Canuto Abreu. São Paulo: Cia. Ismael, 1957. p. 30, nota 1).