Mostrando postagens com marcador Pai João de Aruanda. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Pai João de Aruanda. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Em viagem a terra estrangeira

por Leonardo Möller, editor da Casa dos Espíritos

    Várias foram as reflexões suscitadas nos bastidores da preparação do novo livro do espírito Ângelo Inácio, Os viajores: agentes dos guardiões. Conheça algumas delas e um pouco do que encontrará na obra inédita do médium Robson Pinheiro.

“Todo mundo quer voar além/ Mas é preciso aprender”
Paulinho Pedra Azul

Durante a preparação do texto de Os viajores, fui questionado por dois voluntários da UniSpiritus — a qual reúne as três instituições beneficentes fundadas por Robson Pinheiro — acerca da formação de coordenadores tanto de reuniões mediúnicas quanto de determinada tarefa de grande responsabilidade. Desempenhar ambas as funções exige não apenas conhecimento técnico, mas também, entre outras aptidões, sintonia afinada com a equipe espiritual e maturidade para tomar decisões graves, que afetam diretamente a qualidade do trabalho prestado. Em momentos distintos do mesmo dia, a dúvida era semelhante: “Por que não preparamos mais pessoas? Afinal, com mais dirigentes, poderíamos ampliar o número de atendimentos, diminuir a espera imposta aos consulentes, acomodar mais médiuns nas atividades e, enfim, aumentar a produtividade”. Nas entrelinhas, uma insinuação ou, talvez, suspeição: seria uma espécie de ciúmes ou “reserva de mercado” da parte dos encarnados à frente das atividades que impedia tal expansão, certamente justificada pela demanda?

Há detalhes da biografia e da atuação voluntária dos autores das perguntas que dão ao contexto ainda mais peculiaridade, porém, deixando de lado os aspectos particulares, ocorreu-me depois que determinada noção perpassava o pensamento de ambos. Possivelmente, trata-se de um conjunto de ideias comum a muitas pessoas engajadas em atividades de natureza espiritual. Foi então que me dei conta: essa é exatamente a motivação do novo livro de Ângelo Inácio, muito embora, seguramente, não seja a única. Pode se desdobrar em diversos pontos a serem examinados essa convicção de fundo que detectei naquele questionamento.


ESPÍRITO E MATÉRIA


Um dos enganos comuns ao se analisar a administração de conhecimentos e faculdades de ordem transcendental é aplicar critérios puramente materiais sem ressalva, isto é, sem fazer certa adaptação ao assunto em pauta. A diferença mais notória é que, no mundo profissional, selecionam-se indivíduos com perfil mais adequado à função a ser ocupada mediante determinada remuneração. No âmbito do trabalho com os espíritos, recrutam-se colaboradores principalmente conforme sua disposição, levando-se em conta as aptidões disponíveis no universo restrito de voluntários que se engajam e se comprometem com a causa. Há uma máxima que resume esse princípio: Jesus capacita aqueles a quem chama. 

Se porventura ocorre a alguém que seria no mínimo mais prático chamar os capacitados, recomendo a leitura da parábola do festim de bodas (Mt 22:1-14). Ali o próprio Galileu enuncia a mecânica que rege a vocação de servir à causa do Cordeiro, pois, ao iniciar a história, explica: “O reino dos céus é como um rei que preparou um banquete de casamento para seu filho” (Mt 22:2). Ou seja, ele afirma que as coisas funcionam na Terra segundo os princípios arrolados na sequência, uma vez que reino dos céus refere-se às questões humanas, diferentemente da expressão reino de Deus, também frequente nos evangelhos.


TREINO OU INICIAÇÃO?


Outro equívoco contido na noção daqueles dois amigos é o de que, para os assuntos do espírito, seria o bastante treinar as pessoas, a ponto de dominarem certos conhecimentos ou ao menos manejá-los com relativa destreza. Novamente, tal perspectiva, corriqueira na vida material, não pode ser adotada em tópicos de âmbito mediúnico ou espiritual sem a devida adaptação. Há muito mais fatores em jogo; por vezes, estes preponderam a ponto de se tolerar até a falta de perícia do candidato, devido à presença de outras virtudes. Aliás, a ciência espírita demonstra que, entre faculdades extraordinárias e qualidades morais, os bons espíritos, na impossibilidade de conjugar ambos os atributos, tendem a preferir o último deles em quem elegem para lhes servir de intermediário.[1] Caso conhecimento técnico fosse o suficiente, os apóstolos não teriam incorrido nos enganos fragorosos que cometeram após três anos de aprendizado com o próprio Mestre; entretanto, se fosse fundamental, Jesus não teria escolhido simples pescadores como Pedro e André para o seguirem.

Quando respondi às indagações dos colegas, apontei dois elementos centrais que lhes passaram despercebidos. Maturidade é o primeiro deles. Está aí uma conquista que só o tempo pode dar — mas nem sempre a concede; não mesmo! — e que não se ensina em aulas. Ela não garante imunidade a erros, até porque é passível de crescer sempre, porém, sem o mínimo de maturidade, é certo que o destino, nas coisas espirituais, não será nada promissor.

Ao lado desse aspecto, é preciso lembrar a profecia: “Hão de surgir falsos cristos e falsos profetas, e farão grandes sinais e prodígios; de modo que, se possível fora, enganariam até os escolhidos” (Mt 24:24). As provas espirituais às quais é submetido quem é chamado a servir com Jesus, a fim de que se faça eleito, são fato conhecido. Em minha trajetória à frente de equipes mediúnicas e na direção de uma casa espírita desde 1998, já testemunhei a derrocada ou a deserção de grandes trabalhadores, nos quais muito investimento dos espíritos havia sido feito, tanto quanto a mera deliberação, da parte de alguns desses encarnados, de que preferiam não assumir tamanhas atribuições naquela altura. Por óbvio, os ataques de agentes das sombras e as provas da vida são diretamente proporcionais às responsabilidades e ao volume de investimento do bem. Os colaboradores de valor que acompanho há anos e décadas foram alvejados por desafios e empecilhos que me fazem admirar sua persistência — e que lhes deram, vez após outra, todos os pretextos para que deixassem tal compromisso, o qual, apesar disso, não abandonaram.


ESCOLHAS


Uma das passagens marcantes do livro Os viajores é a da médium Maíra, convidada pelos guardiões, espíritos ligados às forças da justiça, a atuar em parceria com eles. Após Maíra submeter-se a muitas noites de treinamento sob a supervisão deles, em desdobramento — ou seja, projetada, em espírito, na dimensão extrafísica —, é num diálogo travado com o espírito Pai João de Aruanda que seu destino é selado. A despeito da intervenção do animista Raul, bem mais experiente, ela mantém sua decisão, que os espíritos superiores sempre, sempre sabem respeitar.

Acompanhamos também, ao longo de um número maior de capítulos, a trajetória da personagem Diana. Desde os primeiros episódios de manifestação de sua mediunidade, quando passa certo sufoco no exercício da sua profissão — a fim de que se suscitasse seu despertar para as questões espirituais —, até as provas árduas que enfrenta na vida pessoal — no intuito de provocar seu amadurecimento —, vemos que se tornar agente dos guardiões não é uma escolha a ser feita de forma leviana, tampouco uma decisão trivial, diante da qual se possa hesitar e oscilar entre esta ou aquela posição, num vaivém que se traduz em indefinição. Nesse ínterim, passam-se noites e mais noites, horas e mais horas de experiências que têm por finalidade capacitar a cadete em formação, ao mesmo tempo que lhe esclarecem quanto às características e aos percalços inerentes ao serviço na companhia dos representantes da justiça divina.

Já no capítulo inicial, os personagens principais do livro se encontram numa conferência na cidade de Aruanda, que reúne numerosos espíritos de variada procedência e na qual são debatidas as iniciativas gerais em prol da chamada transição planetária, isto é, o momento de transformação global por que passa a Terra. Allan Kardec, o codificador do espiritismo, explicou esse estágio como sendo os sinais dos tempos.[2] Em tal reunião, as contribuições dos encarnados, as obras de reurbanização extrafísica e outros temas mais são objeto de discussão dos espíritos.

Após se estabelecerem diretrizes segundo as quais novas investidas deveriam ser encampadas, um destacamento composto por aqueles personagens parte rumo a uma importante empreitada. Nesta, descrita em detalhes na obra, dedicam-se com ardor à formação de médiuns e parceiros para atuar em conjunto com os guardiões e os demais espíritos envolvidos nos trabalhos dessa hora de renovação planetária.


PRAZER EM CONHECER


Em meio às histórias e às peripécias envolvendo Maíra, Diana, Rosário, Raul e outros encarnados, grande volume de conhecimento é oferecido por personagens já apresentados aos leitores por Ângelo Inácio, especialmente Pai João de Aruanda — o pai-velho chamado João Cobú —, Caboclo Tupinambá e Maria Escolástica, a antiga ialorixá reverenciada sob o nome de Mãe Menininha do Gantois. Num dos tópicos mais instigantes, esclarecem por que os nomes de falanges ou categorias de pretos-velhos geralmente são assinalados por sobrenomes como de Aruanda, da Guiné, da Cabinda ou de Angola, entre outros.

Um dos elementos principais que perpassa a trama de Os viajores é a necessidade premente de aprender sobre a geografia, as características e as leis que regem os planos inferiores — que constituem, em última análise, o local onde o animista se verá tão logo saia do corpo físico por meio do desdobramento. Qualquer um que deseja ultrapassar com o mínimo de desenvoltura e lucidez os portais da dimensão astral, visando a uma atuação proveitosa com emissários do Alto, deve estar consciente dos elementos da natureza extrafísica e dos habitantes desse mundo cheio de particularidades.

Como pode alguém pretender colaborar com os espíritos de forma eficaz se não for capaz de distinguir formas-pensamento daninhas nem elementais artificiais, seres dotados de vida própria que representam ameaça àquele viajor que penetrar os meandros do submundo? Aprofundando-se as informações já descritas em Legião — obra de Robson Pinheiro que inicia a trilogia O reino das sombras —, conhecem-se mais propriedades de criações mentais nefastas como aquelas com feições de baratas, lacraias, escorpiões e formigas, mas, também, as serpentes e os vampiros, mencionados pela primeira vez pelo autor espiritual. Estes últimos, aliás, provocaram nos bastidores da edição da obra uma discussão sobre terminologia, assunto sempre envolto em dúvidas no tocante aos temas espiritualistas. Afinal, até então, o vocábulo vampiro designava apenas o espírito especialista em drenar energias, porém, agora se revela que esse termo também é usado para indicar um elemental que, possivelmente, poderia ser denominado sanguessuga, não tivesse já se consagrado com aquele nome.

Uma espécie de habitante dos pântanos do plano inferior a que o leitor é apresentado são as chamadas sombras, que, na verdade, consistem em massas vitais que adquirem aspecto de humanos desencarnados, mas não os são. Formam-se a partir de cascões astrais, isto é, resíduos de corpos astrais e etéricos em decomposição, e condensam emoções em dose intensa e de baixíssima vibração. Para os médiuns em desdobramento, representam grande ameaça, pois com eles podem estabelecer conexão e, então, levá-los a mergulhar em universo de pensamentos desconexos, com evidentes prejuízos à sua atuação e até à sua saúde.

Em dado ponto desta descrição sumária dos temas abordados em Os viajores, há quem possa ficar com a impressão equivocada de que tais assuntos interessam prioritariamente — e, talvez, unicamente — àqueles que intentam agir em regime de parceria com os espíritos. Ledo engano. Como descobrimos ao longo do livro, muitos são os encarnados que, ao desdobrarem, acabam sendo atraídos para espaços como os pântanos do submundo por questões de afinidade. Claro: além de exigirem atenção da parte dos agentes em formação, essas pessoas constituem motivo de alerta a todos que se interessam por temas espirituais, uma vez que o conhecimento é capaz de esclarecer sobre os riscos a que determinados comportamentos e atitudes adotados em vigília podem expor o indivíduo. Afinal de contas, todos nos desprendemos do corpo físico durante o sono, em alguma medida. Nesse momento, por sintonia vibratória, buscamos e chegamos, na dimensão do espírito, a ambientes compatíveis com nosso estado, em conformidade com o que cultivamos. De fato, como se vê, é preciso aprender a viajar.



Leonardo Möller

Editor da Casa dos Espíritos, professor e coordenador de reuniões mediúnicas na Casa de Everilda Batista e instrutor do Master em Apometria, curso com Robson Pinheiro.


[1] “Influência moral do médium. Perguntas diversas”. In: KARDEC, Allan. O livro dos médiuns ou guia dos médiuns e dos evocadores. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. Rio de Janeiro: FEB, 2011. p. 362-363, item 226, §8.
[2] “Os tempos são chegados. Sinais dos tempos”. In: KARDEC, Allan. A gênese, os milagres e as predições segundo o espiritismo. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. Rio de Janeiro: FEB, 2011. p. 513-533, cap. 18, itens 1-26.

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Coisa de preto


www.livrariarobsonpinheiro.com.br
Por que falar de pretos-velhos e caboclos desperta reações tão adversas? Por que a simples menção dessas figuras, que povoam o folclore, a literatura e a cultura popular do Brasil, faz muitos dirigentes espíritas vetarem livros e repreenderem médiuns? Por que o preconceito racial se estende para além-túmulo?

Certo dia reparei em um companheiro de atividades, cheio de dedos ao falar abertamente do trabalho que realizam a Casa dos Espíritos Editora e a instituição parceira que lhe deu origem, a Casa de Everilda Batista. A vergonha ou o receio que ele tinha devia-se especificamente à bandeira hasteada por ambas as casas, na qual declaram positivamente: “Trabalhamos com pretos-velhos e caboclos”.

— Mas o que o movimento espírita vai pensar? — perguntava ele. — Uma casa espírita aparecer com músicas como as que estão no cd Cantigas de preto-velho? Que casa espírita lança um cd com canções associadas a pretos-velhos e caboclos?

— Entendo suas apreensões — respondi. — Acontece que a nossa sina começou há muito tempo, desde a publicação de Tambores de Angola. Quando lançamos o livro, você se lembra, muitos disseram que havíamos nos tornado umbandistas; agora não há como voltar atrás.

— Então! Imagine um cd

— Mas alguém precisa falar contra o preconceito. Só porque o autor espiritual aborda o tabu umbanda e espiritismo quer dizer que deixamos de ser espíritas? Só porque lançamos um cd com canções que homenageiam os pretos-velhos e caboclos, que tanto têm feito por nós, espíritas, tornamo-nos “antidoutrinários”? Faça-me o favor! Não perdemos a definição espírita de nossas atividades, porque espírita é o método de trabalho. Kardec é bom-senso, e o codificador debatia qualquer assunto, sem medo nem ideias preconcebidas. Quanto aos espíritos, para eles não há barreiras religiosas: onde está o códice que informa a aparência correta de um “espírito espírita”? Kardec fala que é o conteúdo da comunicação que importa, e não a aparência do espírito, que pode ser forjada com facilidade.

As preocupações do companheiro de trabalho, no entanto, não eram infundadas. Com efeito, tudo que se relaciona à cultura religiosa do negro costuma ser assunto controverso, especialmente no meio espírita. Não obstante tanta relutância tenha fortes raízes históricas, é hora de começar a arrancá-las.



Aculturação

O espiritismo de Allan Kardec floresceu no final do séc. xix, entre as camadas mais abastadas da população brasileira, em meio às elites intelectuais e econômicas. O que era de esperar, tendo em vista que é uma doutrina filosófica de implicações morais e científicas, escrita em idioma estrangeiro, oriunda da França, país que à época detinha a hegemonia cultural e ditava as regras do que era chic.

O processo de aculturação do espiritismo, ao aportar num país de características tão diversas quanto o Brasil, também era previsível, senão necessário. Além da tradução para o português, era crucial assimilar os aspectos que compunham a história e a cultura brasileiras, caso houvesse a intenção de disseminar a nova doutrina. E havia, pelo menos da parte dos espíritos que coordenam os destinos da nação.


Leia também:

Espírito também tem cor (!)

Uma das questões que em breve viriam à tona diz respeito à feição ou à roupagem fluídica dos espíritos presentes nas reuniões mediúnicas. Para onde iriam os espíritos de negros e indígenas que desencarnavam na psicosfera brasileira? Além dos médicos, filósofos, advogados e demais intelectuais, também morriam os pobres do povo e os pretos, recém-alforriados pela Lei Áurea de 1888.

Que critérios estabelecer?

Nas páginas de Kardec, nada sobre pretos-velhos ou caboclos, pois que não havia nem emigração das colônias africanas para a França. No máximo, o depoimento de um soldado, morto nos campos de batalha das guerras nacionalistas do continente europeu. Como proceder, então, com essa gente desencarnada?

Assim como a prática de capoeira outrora foi considerada crime, prevista no Código Penal, falar em preto, ainda mais velho, é assunto proibido em muitos locais. Ouvem-se espíritas a debater teorias: “Se der ‘estrimilique’, se errar na conjugação verbal e fizer menção a arruda e guiné”, que são as ervas da medicina de que dispunha a população, “é espírito atrasado”.

A lógica absurda tem justificativa. Afinal, como receber orientação daqueles mesmos que mandávamos amarrar no pelourinho e durante tanto tempo foram comercializados na praça pública, como gado? As imagens do passado espiritual estão fortemente impressas em nossas mentes.



Espiritismo cana-de-açúcar

Às vezes chego a me sentir como se estivéssemos fazendo espiritismo num engenho do Brasil colonial. É que, resquício da época da escravidão, subsiste um certo pavor de se misturar com qualquer coisa que venha dos negros.

É o advento da senzala na realidade espiritual.

Negros não prestam para assumirmos como mentores e reconhecermos como espíritos elevados. Para divulgarmos sem barreiras: “Eles nos têm muito a ensinar com sua simplicidade e sabedoria popular”, também não. No máximo, para fazer um “descarrego” no ambiente — ops!, limpeza energética — ou para lidar com os “obsessores” rebeldes ao diálogo tradicional.

Tudo na mais perfeita discrição. O quanto for possível, sem alarde, para não darmos o braço a torcer, admitindo que, nessa hora, não são os médicos nem os padres e as irmãs de caridade que atuam. Não são eles que se dirigem às profundezas do umbral ou do astral inferior para abordar qgs das trevas.

Ah! E se aparecer um Zé Grosso ou um Palminha, espíritos hoje nacionalmente conhecidos e reverenciados no meio espírita, esqueçamos que eles foram cangaceiros do bando de Lampião, o que quer dizer: nordestinos, provavelmente analfabetos, acostumados ao lombo do jegue e ao chapéu de couro — e certamente à pele escura e queimada de sol. Mesmo que trabalhem com Joseph Gleber, Fritz Hermman ou Scheilla, fechemos os olhos para o fato de que seus nomes destoam da característica europeia dos demais e continuemos a nos enganar.

Mas se negros e mulatos não prestam para aparecer e ser reconhecidos, não aguentamos viver sem eles — nem ontem, nem hoje.

Na época colonial, o negro não sabia de nada, mas a cana-de-açúcar que produzia a riqueza era plantada, colhida e beneficiada por suas mãos. Não eram tidas como gente, mas foram as mulheres pretas que criaram os filhos, amamentaram os bebês, cuidaram da casa, do jardim e das roupas, prepararam a comida que serviam aos convidados.

Na atualidade, mesmo sem gozar do reconhecimento amplo — que não é seu objetivo —, as mães e os pais-velhos dão importante contribuição nos centros espíritas “kardecistas” de todo o Brasil. Aceitos ou não, já se acostumaram com a discriminação; não é isso que importa.

Percebidos ou não pelos médiuns da casa-grande, são os caboclos que manipulam o bioplasma das ervas, são os pretos-velhos que preparam o ectoplasma utilizado em reuniões de cura e tratamento espiritual. São eles que, por vezes, detêm a sabedoria simples que tocará aquele espírito furioso, revoltado com a fome, o abandono e a chibata que experimentou e que muitos de nossos médiuns, doutrinadores e mentores desconhecem. São eles que farão frente aos chefes das trevas, impondo-lhes o respeito, o limite e a autoridade moral, o que uma alma mais doce ou delicada não poderia fazer. Acaso estou enganado e situações como essas só ocorrem em terreiros de umbanda?

É ou não é o perfeito engenho, a estrutura social da colônia que se reproduz de modo atávico e ancestral, projetando-se até na questão espiritual?


 
De Paris para o Pelô

O primeiro centro espírita com base nos livros de Kardec de que se tem notícia no Brasil foi fundado em Salvador, na Bahia de Todos os Santos, no ano de 1865. Ex-capital federal, ostenta até hoje o belo Elevador Lacerda, que conduz à Cidade Baixa e ao mercado em que se vendiam negros.

Está aí um retrato fiel do ambiente espiritual brasileiro: Allan Kardec posto justo ao lado do Pelourinho. Talvez mera coincidência, talvez uma forma de a vida nos lembrar do compromisso que temos com os povos negro e indígena — explorados e massacrados pela civilização dos colonizadores — e que deve ser resgatado desde já, também no trato com o além-túmulo.

Que cesse o preconceito e que vivam as curimbas e as mandingas de preto-velho, a garra e as ervas dos caboclos. Que viva a atmosfera espiritual do Brasil, onde cada um mantém seu método de trabalho, mas sabe respeitar e auxiliar onde quer que seja preciso, com espírito de equipe e de solidariedade. Que vivam os médicos alemães, as freiras e os padres católicos, os árabes e indianos de turbante, os soldados de Roma e todas as falanges e nações que, na pátria espiritual, se reúnem em torno da insígnia de Allan Kardec — e, sobretudo, sob a bandeira do Cristo, de amor e fraternidade.





Da França para o Brasil, dos livros à cesta básica

O espiritismo popularizou-se como uma religião no Brasil principalmente devido à influência de Francisco Cândido Xavier (1910-2002), dada à repercussão de sua obra e ao respeito que conquistou. Com bastante ênfase na ação social ou obras de caridade, emprestando feição consoladora e confortadora ao trabalho dos espíritos, o médium de Pedro Leopoldo, MG, era tido unanimemente como exemplo de amor e abnegação. Inspirou a fundação e transmitiu orientações espirituais a centenas de instituições beneficentes em todo o país, além de ter deixado mais de 400 livros psicografados, que prestaram contribuição inestimável à consolidação da mensagem espírita.

Antes dele, outros ícones também deixam transparecer o esforço dos dirigentes espirituais da nação brasileira para transformar o espiritismo em algo acessível à população em geral. A ideia era adaptá-lo ao contexto histórico e sociocultural do país, sem contudo perder sua feição científica e filosófica, que deveria se manter despojada da pompa acadêmica.
Assim, existiram intelectuais que muito contribuíram para a disseminação do espiritismo e, durante toda a vida, foram homens com notável atuação junto à população de baixa renda. Destacam-se, entre outros, o médico, deputado federal e presidente da Federação Espírita Brasileira, Adolfo Bezerra de Menezes (1831-190), bem como o médium notável e professor Eurípedes Barsanulfo (1880-1918), fundador do Colégio Allan Kardec, em Sacramento, no Triângulo Mineiro.


Leonardo Möller
Editor da Casa dos Espíritos, professor e coordenador de reuniões mediúnicas na Casa de Everilda Batista e instrutor do Master em Apometria, curso com Robson Pinheiro.
 


Texto escrito originalmente para o jornal Spiritus, publicado e distribuído pela Casa dos Espíritos Editora e pela Casa de Everilda Batista. Junho de 2004.

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Diversas faces da umbanda

ph: fb.com/bassafotofilme
“Enquanto Erasmino fugia da ajuda espiritual, os filhos de fé de Odete procuraram a tenda de umbanda indicada pela mãe. A princípio, quatro deles foram até o local para reconhecer o ambiente e pedir permissão aos dirigentes para realizarem uma pesquisa de campo.

— Claro que podem participar conosco, filhos — respondeu a coordenadora responsável à indagação dos filhos de fé enviados por Mãe Odete. — Aqui, somos abertos à participação de todos os interessados. Como vocês já sabem, a única coisa que pedimos é o respeito ao ambiente e aos nossos guias e orixás. No mais, não é preciso ensinar reza para padre — comentou D. Manuela, toda risonha com os visitantes.

— Agradecemos a simpatia e a permissão para que possamos participar, minha mãe — essa era a forma respeitosa de se dirigir à orientadora espiritual da tenda umbandista.

— Vocês chegaram num momento propício. Vamos nos reunir, justamente, agora, para uma aula sobre umbanda, que será ministrada por nós, os encarnados, e também contará com a participação dos espíritos — bom, pelo menos, assim esperamos! — caso eles queiram dar sua contribuição em nossos estudos.

— Então, podemos participar?

— Como não? São meus convidados. Venham, entrem em nosso salão.

— Sentimo-nos verdadeiramente honrados com tanta generosidade, Mãe Manuela.

Raphael, um dos filhos enviados por Odete, reparou na extrema simplicidade do ambiente. Não viu estátuas de santos, como no gongá de Odete. Também procurou símbolos e outros apetrechos de trabalho, como estava acostumado a ver na casa de caridade de onde vinha; mas nada. Ali, a decoração era mínima, singela. Compunham o altar, dispostos sobre uma toalha de linho alvíssimo e engomado, tão somente uma vela acesa, ladeada por dois jarros de flores, sintetizando tudo o que os olhos pudessem apreciar no ambiente. Além disso, um discreto aroma de rosas era percebido na atmosfera da tenda, da qual emanava candura e, ao mesmo tempo, certa solenidade; o salão inspirava respeito e reverência sem ser imponente, e era acolhedor. Viam-se várias pessoas sentadas, em oração, todas vestindo branco. Raphael olhou de maneira discreta para os outros três companheiros que vieram com ele. Todos notaram as discrepâncias marcantes, logo no início. Tudo era bastante diferente do que se observava na tenda onde atuavam. Sentaram-se. Logo após, um homem assumiu a frente e introduziu as atividades:

— Estamos aqui para nossa aula sobre a umbanda e seus mistérios. Recebemos, com o máximo carinho, nossos convidados e desejamos que se sintam bem e à vontade entre nós. Para começar, vamos dar a palavra ao nosso irmão de fé, Roberto Assis, que iniciará sua palavra hoje, pela primeira vez, em nossa tenda.

Após agradecer pela oportunidade e saudar a todos, Roberto, que teria apenas alguns minutos, iniciou sua fala:


Leia também:

— Meus irmãos, caros visitantes, hoje quero abordar um tópico que costuma gerar desconforto em nosso meio umbandista. Refiro-me ao fator consenso entre os praticantes da nossa sagrada umbanda. É compreensível que uma religião que tem tantas faces, tantas formas de se apresentar ao público, ao mundo, encontre dificuldade ao estabelecer uma posição consensual sobre determinado ponto, sobretudo, se levarmos em conta a grande variedade de seus integrantes e adeptos. Digo mais: tenho observado, em minhas pesquisas, que nem mesmo os espíritos chegaram ao consenso sobre diversos pontos, uma vez que muita coisa depende da interpretação, do fator cultural e — por que não dizer? — até do nível de escolaridade de quem estuda, lê e interpreta as questões relativas à umbanda. É claro que não defendo que os títulos acadêmicos mundanos tornem alguém, automaticamente, mais capaz de entender os preceitos sagrados; muito pelo contrário, como, tantas vezes, nos ensinou Jesus. Mas ninguém há de acreditar que uma boa educação básica não desempenhe uma função essencial na compreensão da doutrina umbandista, e até mesmo da prática.

‘Acredito que, entre todos os segmentos filosóficos, religiosos ou de outra natureza qualquer, essa diversidade na maneira de ver as coisas e as variadas formas de interpretá-las seja algo muito comum. Por certo, não é somente na umbanda que isso ocorre. 


Vou dar como exemplo a questão relativa aos orixás cultuados em nossa sagrada umbanda. Em algumas vertentes, aceitam-se somente os sete orixás principais; os demais sequer são mencionados, embora sejam respeitados por diferentes segmentos umbandistas. Por outro lado, existem orixás habitualmente cultuados em barracões de candomblé e que são admitidos e reverenciados em numerosos templos de umbanda. Como exemplo, cito orixás como Oiá, Oxumarê, Nanã e até mesmo nosso pai Obaluaê, ou o velho Omulu. Nem todas as vertentes de umbanda orientam seus seguidores e médiuns a respeito deles, mas nem por isso podemos dizer que um ou outro lado estejam equivocados.

‘Outro caso que merece análise é o fato de médiuns fumarem e beberem enquanto estão incorporados. Há quem defenda que elementos como o fumo e o álcool são instrumentos de trabalho necessários, a fim de que os espíritos possam realizar sua tarefa com médiuns umbandistas. Entretanto, outra corrente, que ganha cada vez mais espaço entre nós, sustenta que nossos guias não precisam de elementos tão materiais assim para desempenhar suas atividades, seja de descarrego ou qualquer outra. Então, perguntamos: qual das duas posições está correta? Quem está com a razão?

‘De minha parte — eu, que sou um simples pesquisador — agradeço muito à Mãe Manuela, que nos dá oportunidade de discorrer sobre temas espinhosos sem nos obrigar a nos conformar com este ou aquele ponto de vista. Para mim, pessoalmente, encaro essa diversidade de opiniões como condutas claras que variam em função da necessidade do público, deste ou daquele terreiro, mas que variam, também, muito especialmente, de acordo com o dirigente material dos trabalhos. Ou seja, em minha opinião, os médiuns e dirigentes umbandistas imprimem em suas atividades forte componente pessoal, conforme sua formação sacerdotal e seus conceitos particulares acerca do que os próprios guias fazem. De tal modo que notamos, em diversos centros umbandistas, muitas características nem sempre advindas, necessariamente, da orientação espiritual, mas como produto do pensamento do dirigente material.’

— Mas isso não constitui perigo na condução dos trabalhos da umbanda, meu amigo? — indagou um dos presentes, nitidamente, interessado no assunto, uma vez que acompanhara outras palestras na casa, em dias anteriores. (…)”


Antes que os tambores toquem
Robson Pinheiro pelo espírito Ângelo Inácio
Páginas 219-225

Adquira este e outros títulos de Robson Pinheiro em www.livrariarobsonpinheiro.com.br